sexta-feira, janeiro 29, 2016

As alternativas de Bauza com Calleri

O argentino Jonathan Calleri (22 anos) fica somente até o dia 30 de junho, o que naturalmente faz dele um titular absoluto no time do também argentino Bauza. A questão é: como encaixá-lo numa equipe com Kardec (e Ganso)? Porque, embora a temporada sequer tenha começado para valer, tudo indica ou indicava que o treinador do São Paulo optaria pelo 4-2-3-1, com Michel Bastos, Ganso e Centurión na linha de três, mais Kardec na frente. Com a chegada de Calleri, no entanto, esse desenho pode ser alterado. Ou não.

Digo ou não porque Kardec já fez e faz a beirada do campo se for preciso. Logo, dessa forma Calleri assumiria o comando do ataque, e a linha de três seria composta por Michel, Ganso e Kardec. Contudo é inegável que Kardec não tem a velocidade e a habilidade (características fundamentais para atuar aberto) dum Centurión da vida, por exemplo. Por isso, de fato, fico na dúvida: Bauza vai abrir Kardec na beirada e fim de papo ou vai alterar o esquema? Ou vai colocá-lo no banco?

Caso Patón não opte por Kardec na beirada, eis algumas alternativas: o 4-4-2 em linha, o 4-4-2 em losango e o 3-5-2 - a menos provável e talvez a que mais me agrade. Repare que nas três há uma dupla de ataque propriamente dita. Nem Kardec nem Calleri fariam a beirada do campo. Dessas maneiras, ambos ficariam mais próximos da área. O ponto é: no 4-4-2 em linha, Ganso teria de ser deslocado à beirada. Tudo bem que com a bola viria para a faixa central, mas sem ela teria de fechar o flanco do campo, acompanhar lateral, e isso é loucura para um atleta com suas características. Pode ser que desse certo, como chegou a dar naquele São Paulo de Muricy e Kaká, no segundo semestre de 2014. Contudo, me parece uma ideia meio sem pé nem cabeça. Ganso é visão e passe. É jogador de faixa central. Por essas e outras, essa alternativa, com o camisa 10 pela beirada, não me agrada.

Também não me agrada tanto a ideia do 4-4-2 em losango, com Ganso enganche, porque o 4-4-2 em losango em tese entrega as beiradas para o rival. Eu sei que não é tão simples assim. Porém como a maioria dos times hoje em dia joga com pontas (wingers), o 4-4-2 em losango, por concentrar os meio-campistas na faixa central, deixa os laterais muito expostos, ficam toda hora no mano a mano, quando não sofrem com a dobradinha feita pelo lateral e pelo ponteiro do adversário. Por essas e outras, essa ideia não me agrada tanto. Nem tanto pelas peças, mas mais pela estrutura tática mesmo (sempre lembrando que, obviamente, o que mais importa é o funcionamento do time, é o conceito de jogo e sua aplicação).

Por fim, o 3-5-2. Disse que talvez seja o sistema que mais me agrade nesse caso porque talvez seja o sistema que melhor equacione as questões Calleri, Kardec e Ganso. E Lugano. Porque no 3-5-2, Ganso não precisaria fazer a beirada. Tampouco Kardec. Ganso seguiria na praia dele, a faixa central, ao lado de Thiago Mendes e mais um (Hudson), e Kardec formaria a dupla de ataque com Calleri. As beiradas ficariam por conta dos alas (quatro nomes para duas vagas: Bruno, Michel, Mena e Carlinhos). E lá atrás, o veterano Lugano jogaria mais protegido, com Rodrigo Caio na sobra e Breno do outro lado. Por essas e outras, me parece a melhor alternativa. Mas como disse, talvez essa seja a menos provável. Seja como for, agora é aguardar para ver como Bauza vai solucionar esse "problema".

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Para onde vai Pogba?

No fim das contas o que prevalece é a vontade do jogador. Ainda mais em casos como este, pois conta-se nos dedos das mãos os jogadores do planeta que podem escolher onde jogar. Nesses casos a maior oferta financeira não necessariamente significa negócio fechado. Não cola a máxima “quem pagar mais, leva”. As questões de campo pesam bastante (companheiros de elenco, lugar no time, treinador, papel na Champions League, etc). E, certamente, a estrela da Juventus está colocando todos os fatores possíveis na balança (a cidade também, o país, etc).

Barcelona, Real Madrid, PSG e Manchester City. Acho que não foge desses quatro clubes. Se for mesmo sair da Juve na próxima janela de verão, no meio de 2016, são esses os clubes que melhor equacionam as questões de campo e financeira (Bayern, por exemplo, não costuma pagar valores astronômicos em contratações). Obviamente não se trata de um jogador barato. Hoje o francês de 22 anos (faz 23 em 2016) é avaliado na casa dos € 100 milhões (o salário também não deve ser nada baixo). Um valor que em tese seria pesado para o próprio Barcelona. Em tese. Mas se partirmos do princípio de que a questão financeira não é problema para nenhum dos clubes citados, aí caímos no que realmente interessa: no campo e bola.



Paul Pogba é titular em todas as equipes da Europa, e acho que isso não se discute, né? Porém em alguns times ele entraria mais facilmente; noutros, um pouco menos. Para ser mais específico, no Barcelona um pouco menos. Não por questão de bola, de estilo de jogo e etc, mas sim pelos inevitáveis efeitos colaterais, digamos assim. Porque hoje os titulares das meias do 4-3-3 culé são Rakitic (27 anos) e Iniesta (31 anos), e Arda (28 anos) e Rafinha (22 anos) seus reservas. Eu sei. Hoje Pogba está jogando mais que todos eles. Na minha opinião, mais até que Iniesta. Hoje. Mas é claro que eu não cogito um XI sem Iniesta. Portanto, sobraria para Rakitic – o que não chegaria a ser nenhum absurdo, nenhuma falta de respeito e reconhecimento com o croata. Não há como negar, todavia, uma possível saia justa no vestiário.

Pogba joga na meia esquerda do 4-3-3. Na verdade, na Juventus, tem jogado na meia esquerda dum 3-5-2 (Marchisio volante e Khedira na meia direita). Num time taticamente estruturado no 4-3-3, como é o Barcelona, sua praia seria a meia esquerda. Onde joga Iniesta. Ou seja, ou Pogba seria deslocado à meia direita, ou Iniesta faria a meia direita (acho que Iniesta acabaria sendo deslocado, pois teria/tem mais condições de fazer isso). O que determinaria essa definição, no entanto, seria o rendimento coletivo. Mas enfim. O fato é que o Barcelona teria Busquets na cabeça de área, e Iniesta e Pogba nas meias. E à sua frente, Pogba teria nada menos que o trio MSN – algo que deve pesar e muito.

No 4-3-3 do Real Madrid do também francês Zinedine Zidane, Pogba entraria no XI sem maiores efeitos colaterais. Com Kroos na cabeça de área e Modric na meia direita, Pogba chegaria para assumir a meia esquerda sem rodeios. Isco e James seriam reservas ou procurariam outro clube. Simples assim. Kroos, Modric e Pogba no meio campo? Nada mal. E à sua frente, Pogba teria o trio BBC. Não chega a ser um MSN, mas, convenhamos, também é um senhor ataque. E estilo de jogo por estilo de jogo, talvez o de Pogba tenha mais a ver com o do Madrid do que com o do Barça. Talvez.

Já no 4-3-3 do PSG, quem perderia a vaga é Thiago Motta (se bem que Blanc o ama). O hoje meia-direita Verratti seria recuado para jogar como “primeiro volante” (onde deveria jogar desde sempre, mas Blanc é teimoso), de modo que Pogba e Matuidi fariam as meias. Nesse caso, vale ressaltar que Matuidi é canhoto. Logo, provavelmente Pogba teria de fazer a meia direita (de novo, nenhum bicho de sete cabeças). Dessa forma o PSG teria o cracaço Verratti na cabeça de área e os franceses Pogba e Matuidi nas meias. Porque ainda tem isso. Querendo ou não, o fato de se tratar de um time de Paris pode pesar na decisão do francês Pogba. Não sei até que ponto, mas pode pesar.

Entre os quatro citados, acho que o Man City corre por fora – se é que está/entrou nessa corrida. Mesmo contando com o fator Guardiola – se é que Guardiola assume o City já na próxima temporada. Apesar do poderio financeiro do clube inglês, sei lá, não vejo Pogba voltando para Manchester (ele foi “revelado” pelo United). Mesmo contando com o fator Pep. Até porque acredito que a filosofia de jogo de Pep não casa tanto com o estilo de jogo de Pogba. O que não quer dizer que não daria certo. Apenas são diferentes. De qualquer forma, é mais difícil imaginar como seria a meiuca do City se Pogba fosse para lá. Fernandinho, Pogba e Silva? Fernandinho, Pogba e De Bruyne? E Touré? Deve sair. Enfim. Por essas e outras, acho que o City corre por fora – se é que o City está/entrou nessa corrida.

Contudo, como eu disse no início do texto, o que prevalece é a vontade do jogador. Se Pogba quiser ir para o Barcelona, vai acabar indo para o Barcelona. Se quiser ir para o Real Madrid, vai acabar indo para o Real Madrid. O mesmo serve para o PSG, para o Man City e para qualquer outro clube (Chelsea, etc). E se quiser seguir na Juventus, claro, Pogba vai seguir na Juventus (o que é mais improvável). De qualquer forma, o fato é que ele é jogador para estar em time que briga pelo título da Champions League quase todos os anos, e esses candidatos se resumem a apenas quatro ou cinco clubes no máximo. E outro fato é que a questão financeira não será exclusivamente determinante nesse caso. A questão de campo e bola vai pesar bastante, e é isso que esse texto tenta analisar.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por que o MSN é tão especial?

O tempo vai mostrar que estamos diante do trio mais espetacular da história do esporte mais espetacular de todos. Portanto, aproveite.



Mas por quê? Por que o trio MSN é tão especial? Por que deu/está dando tão certo? Qual a fórmula? Qual o segredo? Qual a mágica? Bom. Primeiramente é preciso compreender a qualidade e o tamanho dos jogadores em questão. Em especial, claro, Lionel Messi, o único capaz de bater de frente com Pelé – o que por si só já diz muita coisa. O único gênio em atividade (o resto é craque). Sem falar que, aos 28 anos de idade, vive o auge da carreira.

Falando em genialidade, nesse quesito quem mais se aproxima de Messi é justamente o outro ponta do time. Partindo do princípio de que o camisa 10 argentino é o único gênio em atividade (não sei se você concorda com isso), o segundo nesse ranking é justamente o brasileiro Neymar. Qual a definição de genialidade? Eu diria que o talento. Logo, estamos falando dos dois jogadores mais talentosos em atividade no futebol mundial. E eles jogam no mesmo time! (Lembre-se, aos 23 anos de idade, Neymar ainda está a uns cinco do seu auge; ainda assim já fez o que fez e faz o que faz.)

Soma-se a eles ninguém menos que Suárez (28 anos), o melhor centroavante do planeta, vivendo seu auge, hoje à frente de Lewandowski, de Agüero, de Ibrahimovic, de Aubameyang, de Benzema, de Vardy e etc. Eu sei, Suárez não é gênio (lembre-se, só Messi é), tampouco aspirante a isso (como é Neymar). Contudo, sem dúvida alguma, trata-se de um craque do mais alto nível, e sua passagem pelo Liverpool e agora pelo Barcelona escancaram isso. Sem falar na raça do uruguaio, né. Qual treinador, por exemplo, não gostaria de ter um nove mordedor na marcação lá na frente?

Portanto, preste atenção: estamos falando aqui do melhor ponta-direita do mundo (Messi), do melhor centroavante do mundo (Suárez) e do melhor ponta-esquerda do mundo (Neymar) no mesmo time, distribuídos no 4-3-3 clássico. Porque ainda tem isto. Nenhum deles está "improvisado" ou "fora de posição". Não houve "sacrifícios" para encaixá-los na equipe, como é comum acontecer. Os três estão em suas respectivas praias, onde podem render o máximo, individual e coletivamente. E esse é um dos segredos, uma das chaves do sucesso. Por isso se entrosaram tão facilmente.

E se entrosaram facilmente também, ou melhor, principalmente, porque os três são excelentes em três aspectos fundamentais do futebol: o passe, o drible e o arremate (quando você tem a bola, você tem basicamente três opções: passar, driblar ou finalizar). Ainda que em diferentes níveis, tanto Messi, quanto Neymar e Suárez são grandes passadores (o número de assistências entre eles ajuda a comprovar isso), são grandes dribladores, letais no mano a mano, e são grandes artilheiros (o número de gols deles comprova isso). Sem falar no show, no entretenimento, no colírio para os olhos, na beleza das jogadas. E na eficiência.

Outro segredo, que na verdade não é segredo, é o entrosamento fora de campo. É sabido que os três se tornaram amigos de verdade (que upgrade na vida de Neymar, Messi é o novo Gil Cebola). Todos sabem que o ambiente entre eles é ótimo. Não sei até quando vai durar essa Lua de Mel, mas o fato é que eles se dão muito bem fora das quatro linhas, e o resultado disso é vaidade zero e altruísmo mútuo a mil dentro delas.

Quem ganha com isso? Mais do que o Barcelona e seus torcedores, ganha o futebol e seus admiradores. Pois estamos diante do trio mais espetacular da história do esporte mais espetacular de todos, e o tempo mostrará isso no futuro. Portanto, só te digo uma coisa: aproveite o presente.

PS: A comparação com outros trios, até mesmo de outros setores como meio campo e defesa, deve se dar entre clubes, e não entre clube e seleção. Não faz sentido comparar Messi, Suárez e Neymar com, por exemplo, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo da Copa 2002. Como diria o outro, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Dribles, passes e gols

Veja abaixo alguns lances dos quatro melhores pontas da primeira metade da temporada europeia 2015/16 (dois de cada lado).

1. Neymar (23 anos), destro, ponta-esquerda do Barcelona.



2. Douglas Costa (25 anos), canhoto, ponta-esquerda (e direita) do Bayern.



3. Mahrez (24 anos), canhoto, ponta-direita do Leicester.



4. Di María (27 anos), canhoto, ponta-direita do PSG.



PS: O ponta-direita canhoto Lionel Messi não entrou porque ficou dois meses parado. E o próprio Cristiano Ronaldo, que não faz uma ótima temporada até aqui, fez várias partidas como centroavante, no Real Madrid de Benítez.

sexta-feira, novembro 27, 2015

4-1-4-1 > 4-2-3-1

"Passou o momento." Foi o que disse Tite sobre o 4-2-3-1. Em contrapartida, na entrevista publicada hoje no site da Folha (leia aqui), o treinador falou que o 4-1-4-1 é "agressivo" e "criativo". Não com essas palavras, mas você que me segue no Twitter deve ter percebido que eu tenho batido nessa tecla de uns tempos para cá.



Evidente que você ainda vê times jogando no 4-2-3-1, inclusive na própria Europa. Em especial na Inglaterra (o que me leva a desconfiar se isso tem a ver com o papel dos ingleses na Champions League recentemente). Mas o fato é que o 4-1-4-1 (o 4-3-3 compactado, com pontas alinhados aos meias) tem se mostrado o esquema tático mais condizente com o futebol de alto nível que se joga hoje em dia. O 4-2-3-1, digamos, é muito 2010.

Aliás, falando em 2010, é bom lembrar que a maioria dos treinadores brasileiros precisou da Copa do Mundo da África do Sul para "descobrir" o 4-2-3-1 (uma nítida evidência de que eles não assistiam ao futebol europeu pela TV fechada). Foi só a partir de então que o esquema começou a se disseminar pelos times brasileiros, sendo hoje, quase 2016, ainda, o sistema mais utilizado por aqui. Raros times jogaram o Brasileirão 2015 no 4-1-4-1, por exemplo. O campeão Corinthians de Tite foi um deles; o Cruzeiro de Mano também o adotou (não à toa, são os dois melhores treinadores brasileiros da atualidade); sem falar no São Paulo de Osorio, e no Atlético-MG de Levir em alguns momentos. Mais algum? Não me lembro.

Claro. Esquema tático sozinho não ganha jogo. O que realmente importa é o funcionamento do time. O esquema estrutura, mas sem ideias de jogo não significa muita coisa. E é aí que entra o famoso dedo do treinador. (E vale ressaltar que sem certas peças você não consegue executar certas ideias, nem implantar certos esquemas.) No entanto a importância do esquema tático em si não pode ser diminuída, e as palavras de Tite me auxiliam nessa visão em relação ao 4-1-4-1 ser melhor que o 4-2-3-1. Mas qual a diferença? Por que o 4-2-3-1 ficou no passado e o 4-1-4-1 implica em algo moderno? - se é que você concorda com isso.

Na minha visão, entre outros fatores, pelo seguinte: o 4-2-3-1 ainda divide o meio campo em dois (volante e meia), um problema grave do futebol brasileiro nas últimas duas décadas, enquanto o 4-1-4-1 exige um meio-campista mais completo. E esse meio-campista mais completo, mais versátil, que "defende" e "ataca" com eficiência semelhante, representa o que há de moderno no setor mais crucial do time (o meio campo). A tendência do 4-2-3-1, na verdade, é virar um 4-4-1-1, com wingers alinhados aos volantes na fase defensiva, e o meia-central (camisa 10), que joga atrás do centroavante, virar um segundo atacante. Ou seja, o camisa 10 vira mais um segundo atacante, e a criação está mais na faixa dos volantes (o que configuraria um 4-4-2 em linha). Por essas e outras, o 4-1-4-1 é o mais equilibrado, em todos os sentidos. E as palavras de Tite endossam ainda mais essa opinião, embora não exista uma verdade absoluta.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Pontas de ponta na Seleção

Willian sempre foi ponta-esquerda e Douglas Costa sempre foi ponta-direita. Nos tempos de Shakhtar, em diferentes momentos, o posicionamento inicial deles sempre foi este: destro à esquerda e canhoto à direita, como mostram estas quatro pranchetas do Futebol de Botão (veja aqui, aqui, aqui e aqui). No entanto, como você sabe, Willian costuma jogar à direita no Chelsea e Douglas Costa à esquerda no Bayern. Por quê? Simples: porque no Chelsea tem um tal de Hazard e no Bayern tem um tal de Robben.

Okay. A explicação não é tão simples assim, em especial no que diz respeito ao time de Guardiola. Mesmo sem Robben no XI, Douglas Costa cansou de jogar aberto na esquerda nesta temporada. Mesmo sem Robben na equipe, Götze e Coman (e Müller) atuaram na ponta direita, enquanto Douglas seguiu na esquerda. Essa escolha, porém, está ligada à estratégia do treinador. Na ponta esquerda, o canhoto Douglas Costa gera amplitude e profundidade, e pode cruzar para matadores como Müller e Lewandowski, por exemplo. Já na Seleção, quando está aberto no flanco esquerdo, ele não tem para quem cruzar (ainda mais quando o centroavante é Neymar, como foi no 3 a 0 sobre o Peru, nesta terça, na Fonte Nova). Sem falar que o time de Dunga ataca com poucos homens na área.



O fato é que Douglas Costa rende mais pela direita, assim como Willian rende mais pela esquerda. Mas como você sabe, no Chelsea e no Bayern, Hazard é o dono da ponta esquerda e Robben o dono da ponta direita (e ainda assim, mesmo "fora de posição", Douglas Costa e Willian voam na Inglaterra e na Alemanha). Na Seleção, porém, fica evidente – e a partida contra o Peru foi sintomática – que essa é a melhor opção. Porque com as pernas invertidas (canhoto na direita e destro na esquerda), o ponta de qualidade – como são Willian e principalmente Douglas – entra na diagonal driblando e criando ângulo para o passe ou para o arremate com a parte de dentro do pé bom (sem falar na abertura do corredor para o lateral subir).

Portanto, uma coisa é mais do que certa: a ponta direita da Seleção deveria ser de Douglas Costa. Disso, não tenho dúvida. Daqui até a Copa 2018. Em contrapartida, só não cravo a mesma coisa em relação a Willian na esquerda porque o Brasil já possui o melhor ponta-esquerda do planeta, e ele atende pelo nome de Neymar Jr. Isso mesmo: o melhor ponta-esquerda do planeta. Como falso nove ou até segundo atacante no 4-4-2, por exemplo, Neymar é um ótimo jogador, pois é (muito) craque e se adapta bem. Mas como ponta-esquerda, o destro Neymar destrói. É o melhor do mundo na posição. Logo, não me parece inteligente tirá-lo dali, por mais que a crise da camisa nove seja inegável e preocupante. Em outras palavras, de uma coisa eu tenho certeza: independente do esquema (4-2-3-1 ou 4-1-4-1) e das outras peças, a Seleção deveria jogar com Douglas Costa na ponta direita e Neymar na ponta esquerda. Disso, meu caro, não tenho dúvida.

PS: Guardiola já deu a deixa. Leia aqui.

terça-feira, novembro 17, 2015

O segundo melhor treinador brasileiro

Mano Menezes está, indiscutivelmente, entre os três melhores do Brasil. A afirmação é bem atual, contudo foi escrita há oito anos, em novembro 2007. Duvida? Veja aqui. Pois é. Você que me segue no Twitter sabe que admiro o trabalho do treinador do Cruzeiro desde os tempos de Grêmio, quando ele ajudou a levar o Tricolor da Série B (2005) ao vice-campeonato da Copa Libertadores (2007), com um time que tinha, veja você, Saja no gol, Patrício na lateral, Sandro Goiano no meio campo e Tuta no ataque.

O Grêmio de Mano, por sinal, já jogava no 4-2-3-1, esquema tático que só virou moda no Brasil após a Copa 2010. Ou seja, enquanto Mano adotava o que havia talvez de mais moderno no futebol mundial em 2006, a maioria dos distribuidores de coletes que habitam o futebol brasileiro precisou da Copa do Mundo da África do Sul para “descobrir” o 4-2-3-1 – esquema que hoje, em pleno 2015, encontra-se, digamos, obsoleto, embora a maioria das equipes por aqui ainda o adote e o execute de modo equivocado.



Modinha. Falar mal de Mano no Brasil virou modinha. Devido a sua passagem pela Seleção, quando foi apunhalado pelas costas pelos mandatários da CBF e foi substituído por Felipão, e devido à maneira de como saiu do Flamengo, falar mal de Mano virou modinha, virou um esporte nacional, endossado pela imprensa nivelada por baixo, que predomina no futebol brasileiro. No Brasil tudo é levado para o lado pessoal, e com Mano não foi diferente. As poucas pessoas que conseguem analisar o trabalho de campo e bola e não apenas os resultados, no entanto, sabem que Mano fez um bom trabalho no Grêmio, no Corinthians (inclusive em 2014), na Seleção (foi mandado embora quando estava encontrando o caminho) e no próprio Flamengo (acabou campeão da Copa do Brasil).

Graças aos resultados obtidos pelo Cruzeiro (lembre-se, o resultado qualquer idiota analisa), espero que agora torcedores e jornalistas parem de pegar no seu pé, reconheçam o valor do seu trabalho e compreendam o tamanho de Mano Menezes no futebol brasileiro – um dos três melhores treinadores do país desde 2007, hoje atrás apenas de Tite (pelo menos na minha cabeça, indiscutivelmente). Quando foi contratado pelo Cruzeiro, aliás, eu disse que o time azul de Minas iria certamente brigar pelo G4. Mas pelo G4 do Brasileirão 2016, pois futebol não se faz da noite para o dia (confira aqui). Porém como o futebol brasileiro é uma enorme briga de foice no escuro, pode ser que essa previsão se confirme com um ano de antecedência, em função da qualidade do elenco e do treinador - e da ruindade dos adversários.

quinta-feira, outubro 22, 2015

Afinal, qual deveria ser a da Seleção?

Qual o modelo de jogo da seleção brasileira? Ou melhor. Qual é o modelo de jogo da seleção brasileira atual e qual é/seria o modelo de jogo considerado ideal para ela? A prioridade é/deveria ser valorizar a posse através da troca de passes ou é/deveria ser o contra ataque? Controlar o jogo com a bola ou controlar o jogo sem a bola? Afinal, qual deveria ser a prioridade da seleção pentacampeã do mundo?

Parece-me evidente que a resposta é a primeira opção. Parece-me evidente que a seleção brasileira deveria propor o jogo com a bola, através da troca de passes curtos, pacientes e pensados, visando à criação de chances para o talento desequilibrar. No entanto o que vemos na prática, sob o comando de Dunga, é uma equipe que prioriza a marcação por zona no campo defensivo, a retomada e a transição rápida (com Felipão não era muito diferente). É o que o time sabe fazer. Nada muito além disso. Por essas e outras, Dunga deve adorar enfrentar a Argentina em Buenos Aires, por exemplo, pois ele pode adotar essa estratégia sem ser questionado. Quando analisamos o todo, contudo, é pouco. Não é o suficiente.

Claro. Contra a Argentina fora de casa é justificável, compreensível e até recomendável priorizar a marcação por zona, a ocupação dos espaços com linhas compactadas e sincronizadas, a roubada e o contra ataque. Legítimo. O problema é que a Seleção de Dunga, sem tirar seus méritos e dos atletas, só sabe jogar dessa maneira. Uma maneira menos complexa, digamos assim – tanto é que são poucos no mundo (clubes e seleções) que conseguem valorizar a posse de bola à troca de passes inteligentes e eficientes. Quando a Seleção precisa propor o jogo com a bola, entretanto (ou seja, na maioria das partidas), os comandados de Dunga meio que não sabem o que fazer (as ações são resumidas nas saídas com os laterais, na bola longa e, claro, na genialidade de Neymar).

Particularmente tenho convicção de que a Seleção deveria ser uma dessas raras equipes no mundo que controlam o jogo com a bola, estilo Guardiola mesmo (Guardiola é o exemplo extremo, mas existem outros que adotam a mesma filosofia), pois há material humano para isso (Coutinho, Lucas Lima, Willian, Oscar, Casemiro, Fernandinho, Luiz Gustavo, Hernanes, etc). Em contrapartida, tenho certeza de que Dunga, mesmo se quisesse fazer isso, não teria nem ideia de como fazê-lo, de como treinar o time para colocar em prática esse modelo de jogo. Em outras palavras, o Brasil tem sim material humano, dentro de campo, para ser protagonista com a bola. Mas não tem material humano de qualidade no comando. A começar pelo treinador, que nem treinador é.

quinta-feira, outubro 15, 2015

Galo coloca Inter no bolso

Compactação nas fases defensiva e ofensiva, aproximação, movimentação, sincronia, troca de passes curtos, intensidade, chances criadas. Esse foi o Atlético-MG diante do Internacional, no Independência, nesta quarta, pela 30ª rodada do Brasileirão. Apesar da vitória magra no placar (2 a 1), foi um banho de bola do time de Levir no time de Argel.

Claro. Levir está há mais tempo no cargo que Argel. Naturalmente o Galo deveria estar, como está, num estágio mais avançado que o Inter (está alguns estágios mais avançado, na verdade). No entanto não é apenas o tempo de casa do treinador que determinou a superioridade do Atlético (tampouco o fator casa). Seria simplório demais chegar a essa conclusão baseado apenas nisso. Vários fatores pesaram na balança, e talvez o principal deles seja a diferença entre os treinadores (sem falar nos jogadores, claro).

Se por um lado o Atlético sabia direitinho o que fazer quando tinha a posse, do outro o Inter não tinha nem ideia. Embora o adversário fosse o Atlético no Independência (ou seja, osso duro), o Colorado deixou a desejar quando a recuperava. Com Nilton, Dourado, Anderson e Alex no meio, e Ernando na lateral, o contra ataque praticamente não existiu. Não havia peças para isso. O que me levou a pensar que a estratégia de Argel, se é que ele tinha uma, era segurar a pressão e tentar vencer na bola longa ou aérea (o gol do Inter, de empate, saiu num escanteio, com o zagueiro Paulão). Convenhamos, é muito pouco.

Em outras palavras, o repertório do Inter na fase ofensiva foi limitadíssimo. Como me parece ser seu treinador: limitadíssimo. Parece-me que não dá para esperar de Argel muito além disso. Um time bastante físico, com atletas altos e fortes, que marca muito e sai no contra ataque (isso quando tem peças em campo para contra atacar, senão o repertório fica mais limitado, restrito à bola aérea e às jogadas individuais fortuitas, que sempre podem ocorrer e decidir uma partida). De fato, faltam boas ideias de jogo para Argel, e sua equipe é um reflexo disso dentro das quatro linhas. No Atlético, em contrapartida, as ideias de jogo são inteligentes, definidas e assimiladas. Reflexo de Levir.

domingo, outubro 04, 2015

Bayern atropela Dortmund

Na prática, um 3-3-4. Com a bola, foi assim que o Bayern de Guardiola se posicionou, diante do Borussia Dortmund, neste domingo, na Allianz Arena, pela 8ª rodada da Bundesliga: num 3-3-4. Com a posse, o lateral-direito Lahm ocupava o corredor central, para evitar a inferioridade numérica no setor, ao lado de Thiago (Alonso cabeça de área), de modo que Müller se somava a Lewandowski no ataque, e Götze e Douglas Costa davam amplitude, colados às linhas laterais (a linha de fundo era deles). Na defesa, Alaba, Boateng e Javi Martínez marcavam Aubameyang e Mkhitaryan.



No 4-4-2 em losango do treinador Thomas Tuchel, Aubameyang e Mkhitaryan atuaram abertos (Reus começou no banco e entrou no segundo tempo), com Kagawa enganche (vs Alonso), o jovem Weigl à frente da zaga, Gündogan na maior parte do tempo duelando com Thiago, e Sokratis na lateral direita, para marcar o já conhecido Douglas Costa. Como era de se esperar, fora de casa, a estratégia do BVB estava voltada ao contra ataque. No entanto, o contra golpe amarelo não pintou e bordou, como de costume, pois do outro lado havia uma equipe que sabe e soube neutralizar o adversário. E que conta com um grande goleiro (Neuer fez umas duas ou três defesas difíceis).

A superioridade do Bayern ficou refletida no placar final: 5 a 1. Müller fez dois, Lewandowski fez dois e Götze um; Aubameyang fez o de honra do Dortmund. Um massacre. Mais um na temporada 2015/16, imposto pelo time mais bem treinado da atualidade. Em seu terceiro ano no clube alemão, mais do que nunca, Guardiola tem a equipe nas mãos. Mais do que nunca os jogadores têm assimiladas suas ideias de jogo, seus conceitos. Sem abrir mão de sua filosofia, mas sempre agregando variações ao repertório (dois gols contra o Dortmund nasceram de passes longos de Boateng, por exemplo), Pep vai conduzindo o Bayern a outra temporada espetacular, suportado pela fase iluminada de jogadores como Lewandowski, Thiago, Douglas Costa e etc. Sem dúvida, é o time a ser batido na Europa.