domingo, outubro 28, 2007

Simplesmente, Mané Garrincha

Deus escreve certo com linhas tortas.

Garrincha dribla certo com pernas tortas.

Foi assim desde sempre.

Sua primeira vítima foi a parteira.

Quando nasceu, logo driblou-a.

Quando moleque, sempre descalço, sempre, pé cascudo, driblava os bichos.

Rolinhas, juritis, caga-sebos, beijas-flor.

Coelhos, gambás, cotias, preás.

Nada escapava.

O pequeno Manuel não perdoava.

Não perdoava também os moleques da rua.

Aos 7 anos, era o melhor nas peladas.

Driblou as professoras.

Matava aula para fazer o que mais gostava: caçar, pescar, jogar bola.

Reprovado.

Driblava os patrões.

Na fábrica, aos 14, ou faltava ao trabalho, ou dormia nas caixas de algodão alojadas no porão.

Demitido.

Reademitido, para poder jogar pelo time da cidade.

Driblou o Exército. Sem fazer forças. O sargento o dispensou, pois considerou que o garoto era portador de "defeito físico".

Aos 19, o primeiro contrato.

O sujeito de Pau Grande, de pau grande, de novo driblou.

Desta vez, o alvo foi o maior lateral-esquerdo do mundo.

Nem a Enciclopédia escapou de Mané.

Daí para frente, driblou marcadores infinitos.

Joãos.

Inúmeros.

Joãos, Josés, Jordans.

Não só no gramado do Maracanã.

Não só nos gramados Brasil.

Sofreram também os gringos.

Driblou nos gramados suecos.

Johns, Josephs, Johanssons.

Galanteador nato, também driblou a mulher.

As mulheres.

Inúmeras.

Joanas, Marias, Elzas.

Voltou a driblar nos tapetes chilenos.

Botou todos no chinelo. Todos. Sozinho.

Garrincha era isso: um driblador.

Um brasileiro driblador.

Sozinho, driblava.

Driblava a todos.

E a tudo.

Só teve um marcador de verdade em toda vida.

O único que foi capaz de pará-lo.

Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, o Mané, o Anjo das Pernas Tortas, a Alegria do Povo, com toda sua genialidade, não conseguiu driblar seu perseguidor letal: o álcool.

*Garrincha nasceu há exatos 74 anos.

4 comentários:

Vinicius Grissi disse...

Texto MARAVILHOSO!!!!

Parabens, de verdade. Para você e para este grande gênio.

fábio gomes disse...

grande lembrança, carlão!!! hoje, eu tenho que me contentar com uns manés que acham que é o mané... que não se garantem em campo, mas acham que sim.... além disso, ainda tenho que me contentar com um mercenário, que perde 5 gols por jogo para fazer um golaço... um traíra ingrato, que já nos deixou na mão duas vezes... temos que contentar com jogadores que não ganharam um título, mas foram ao monumental de nuñez achando que eram craques... um time de frouxos!!! ô mané garrincha!!! bons tempos....
saudações botafoguenses!!!

Arthur Virgílio disse...

ótimo texto. Mané, realmente, era demais. Uma boa pedida é ver o filme sobre sua trajetória, o homem era garanhão.

Anônimo disse...

ótimo texto