domingo, janeiro 18, 2015

O camisa 10 veste a 5

De uns tempos para cá, cabeça de área, no Brasil, virou sinônimo de cão de guarda. De uns tempos para cá, talvez mais de 20 anos, cabeça de área no Brasil virou sinônimo de destruidor. Enquanto sinônimo de construtor virou o camisa 10. No fim das contas, dividiu-se assim as funções: você destrói e você constrói. Você joga sem a bola e você joga com a bola. No fim das contas, dividiu-se o setor mais importante do jogo: o meio de campo.

Particularmente gosto de fazer uma divisão na meia cancha, mas não nesse sentido. Pois para mim existem dois tipos de meio-campistas: os de beirada e os de faixa central. Simples assim. Ou o meio-campista é jogador de flanco (velocidade e habilidade), ou é jogador de faixa central (visão e técnica). Essa divisão faz sentido, para mim. Já a outra, entre volante e meia, entre cão de guarda e camisa 10, entre destruidor e construtor, não. Dessa eu discordo com todas minhas forças. (Tostão escreveu sobre isso esses dias, inclusive.)

Costumo dizer que o camisa 10 clássico, o meia-armador, estilo Ganso, não morreu. Se adaptou. Não da noite para dia, já que nada acontece da noite para o dia, ainda mais em caráter evolutivo. Mas se adaptou. Pois os times que têm predileção pela manutenção da posse de bola e pela troca e passes, e que conseguem fazer isso com excelência, claro, hoje tem no seu "cão de guarda", no seu camisa 5, o seu camisa 10. Esses times têm no seu "primeiro volante" o construtor, o pé pensante, e não o destruidor, não o ladrão de bola que rouba e toca para o lado. Exemplos? Real Madrid, Bayern e Juventus.

Nos times treinados por Ancelotti, Guardiola e Allegri, os verdadeiros arquitetos são Kroos, Alonso e Pirlo. São eles os grandes responsáveis pela construção do jogo, pegando a bola à frente dos zagueiros, virando de frente e, com visão e qualidade no passe, distribuindo de trás. Não quero dizer que os outros jogadores não constroem, que os outros jogadores não criam. Não é isso. Pelo contrário. Todos criam. Assim como todos marcam. Contudo me parece saudável à equipe ter no principal setor do jogo (o meio de campo) um primeiro toque pensado, qualificado de técnica e visão.

Também não quero dizer que todos os times do mundo devem jogar assim. Não é isso. O Chelsea, por exemplo, tem em Matic o dito primeiro volante, um jogador com características bem distintas de Kroos, Alonso e Pirlo. Mas sem dúvida um dos melhores na posição, uma vez que sua função é diferente. O papel desempenhado por ele no time de Mourinho não é o mesmo feito pelo trio acima em suas respectivas equipes, uma vez que cada equipe tem suas respectivas peças, suas estruturas táticas e suas filosofias. Como disse, essa opção por um pé pensante na cabeça de área, como Kroos, Alonso e Pirlo, ocorre em times que privilegiam a posse de bola e a troca de passes, como o Madrid, o Bayern e a Juventus (a Juventus talvez um pouco menos, mas Pirlo é o exemplo mais clássico de todos, não podia ficar de fora). E é aí que entra o dedo do treinador.

Um comentário:

Marden Jump disse...

Podemos pegar como exemplo também o Cruzeiro, onde tanto Henrique quanto Lucas Silva não são cães de guarda, Henrique tem um bom passe e uma boa chegada a frente e Lucas é mais armador como mesmo você disse no texto. É um grande diferencial da equipe bicampeã.